Descubro, na dormência do dia que se estende,
que não há distância maior ou menor
entre os sonhos e a realidade que nos separa.
Tudo é feito da mesma matéria,
do mesmo silêncio compartilhado,
da mesma intensidade de desejos
a latejar no corpo,
a torturar a alma,
a devastar como doença
cada célula do meu corpo...
então, paraliso.
Paro no tempo por indeterminado momento...
e, em pensamento, vou ao teu encontro.
Levada pelo vento
transponho montanhas,
sigo por estradas de terra batida,
pelas margens dos rios límpidos
em busca do teu sorriso cristalino,
do teu olhar de calmaria,
do teu abraço de paz continuada.
Diluindo o azul, vem o sol,
de um amarelo pálido,
quase doente...
(as manhãs endomingadas
são sempre assim na tua ausência...)
E esta angústia que vai dentro de mim
derrama dos olhos e pinta de tristeza
a natureza à minha volta...
(talvez...)
Talvez seja apenas saudade
de te ver refletido em minhas pupilas,
de te ter em meus braços, num abraço infinito.
Ao longe,
os pássaros entoam uma canção de lamento.
O tempo não passa, quando estou longe de ti...
(tudo parece seguir o seu curso,
em câmera lenta...)
És minha ambição e meu vício
e insisto, neste sentimentalismo pobre e vadio,
que mais parece uma prece
de uma virgem aflita a rezar estações intermináveis,
a se impor penitências de pecados não cometidos,
a suplicar o teu amor pela eternidade...
Apago o sol com a ponta dos dedos,
inverto o movimento de rotação da Terra
e anoiteço, nesta falta sentida
do teu corpo junto ao meu.